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Videoinstalação: O Corpo como Inscrição de Acontecimentos | Imprimir |


“... Sim, chegaria o dia em que o
seu rosto se enrugaria e
murcharia, seus olhos perderiam o
brilho e cor e a graça de suas
faces se romperia e deformaria. O
carmesim de seus lábios iria
desvanecer, da mesma forma que
o ouro dos seus cabelos. A vida
que devia formar a sua alma iria
deforma-lhe o corpo. Tornar-se-ia
horrível, disforme e grotesco”.

O retrato de Dorian Gray
Oscar Wilde

A motivação para a o desenvolvimento da videoinstalação O corpo como inscrição de acontecimentos partiu de algumas questões pertinentes aos procedimentos adotados na pesquisa, procedimentos estes que remetiam ao Corpo Histórico que estava interessado em abordar. As questões foram: como tratar o coletivo, sendo o corpo individual um território e uma escultura tridimensional? De que maneira, representativa, eu poderia ampliar a discussão e as premissas do seu lugar na contemporaneidade? No processo de elaboração e maturação da obra, pesquisei as primeiras fotos de nu, tanto masculino quanto feminino, que remontam ao final do século XIX. Encontrei alguns trabalhos que de certa forma dialogavam com a pesquisa que estava desenvolvendo.

A fotografia deste período veiculou a imagem de atletas testando limites da própria força e a beleza dos seus corpos. Entre os fotógrafos deste período, Eadweard Muybridge, que promoveu a captura do movimento do aparelho locomotor, através da cronofotografia (FIG. 29), criando um sistema fotográfico onde diversas câmeras simultaneamente eram disparadas, a fim de estabelecer uma captura seqüencial de apreensão do corpo e o estudo do movimento.

Muybridge interessava-se principalmente por nús masculinos e femininos, mas é com o célebre trabalho da corrida do cavalo que sua obra toma conhecimento mais amplo. Suas fotos demoram a ser veiculada na época devido ao preconceito com o nu masculino. Contudo, após a publicação dessas imagens, vamos ter um grande avanço e um determinado interesse pela pesquisa da reprodução e decomposição do movimento corporal.

FIG:29 - Eadward Muybridge - locomoção humana, chapa 616, 1887.

A maneira de expressar-se através da fotografia revelou a dinâmica moderna e suas transformações. Buscou-se compreender e dialogar por meio das imagens, os anseios e descobertas do mundo moderno, onde as relações de uma sociedade pautada em sistemas que tratam de intermediar o tempo e a produção tornam-se mais evidentes. Segundo Milton Santos:

Esse momento no qual vivemos, para repetir Chesnaux, é de uma sociedade sincrônica, integral, na qual o homem vive sob a obsessão do tempo, sociedade essa que é, ao mesmo tempo cronofágica. (SANTOS, 2002, p.21).

O advento da fotografia permitiu a quebra de valores pictóricos e pôs em questão a representação da pintura, que a partir do início do século XX, rompe com a representação mimética da realidade.

Neste mesmo período, com a instituição dos jogos Olímpicos modernos, houve uma tentativa de reviver a tradição Grega e esse legado do “purismo” na imagem de seus atletas. Para SEVTENCO:

Num mundo em que as máquinas, para a produção ou para a guerra, haviam se tornado onipresente em curtíssimo espaço de tempo, o esporte era o recurso por excelência para o recondicionamento dos corpos a exigências da nova civilização mecânica. Foi esse drama da domesticação dos corpos à preponderância das máquinas que, como já vimos, Charles Chaplin condensou brilhantemente em Tempos Modernos.(2001, p. 107).

A quebra de recordes, os desempenhos, são vetores que a modernidade vai instituir e passará a ser regra fundamental no comportamento corporal da sociedade.

É por isso que os esportes se baseiam no desempenho físico medido contra o cronômetro, em modalidades de equipe adaptadas à rigorosa coordenação coletiva, articulam-se em organogramas de classes, categorias e rakings e são programados por tabelas progressivas de recordes – equipamentos sistemas e métodos que os gregos nunca conheceram e nem sequer imaginaram. Nesse sentido, os esportes de nossa época são, de fato, exercícios de produtividade em perfeita sintonia com os princípios econômicos e os valores morais que regem a nossa sociedade. (SEVCENKO, pp. 107 – 108).

Somando a fotografia à criação dos grandes estúdios de Hollywood, nos anos 30 e 40, houve a industrialização do cinema norte-americano, os moldes da modernidade vão estar caracterizados e sendo segmentados, através desta indústria que já se imprimia como uma poderosa máquina. Não se resumindo apenas à indumentária, também o corpo absorveu os moldes referenciados em seus filmes. Era uma forma de desenvolver a máquina capitalista através desta indústria.

Obsessões com a saúde, com a “linha”, com a higiene: rituais de controle (check-up) e de manutenção (massagens, sauna, desportos, regimes); cultos solares e terapêuticos (sobre consumo de cuidados médicos e de produtos farmacêuticos), etc. Incontestavelmente, a representação social do corpo sofreu uma mutação cuja profundidade pôde já ser posta em paralelo com o abalo democrático da representação de outrém; é do advento desse novo imaginário social do corpo que resulta o narcisismo. (LIPOVETSKY, 1983, pp. 57-58).


FIG: 30: Andy Warhol - Before and after, 1962.

Os ideais de beleza passaram a ser determinados através das telas de cinema e posteriormente com o surgimento da TV, esses vetores tornaram-se cada vez mais mutáveis. Na década de 60, Andy Warhol, desenvolveu uma série de trabalhos que apontavam para as cirurgias plásticas, alguns trabalhos tratavam do “antes e depois” como o trabalho Before and after de 1962 (FIG.30). O artista visionava os anúncios de jornais e revistas que especulavam este tipo de apresentação nos anos 90. Em outros trabalhos, tais como: Female movie star composite (FIG. 31) e Female movie star mechanica de 1962, ele desenvolveu o que seria uma espécie de mutação, uma imagem fixa de um rosto com possibilidades de se compor com uma boca, um nariz, uma testa. Supostamente, este trabalho teria acionado ou despertado algum interesse na artista francesa Orlan, em seu trabalho A Boca de Europa e o Corpo de Vênus. Trabalho já referenciado no primeiro capítulo da presente dissertação.


FIG:31 - Andy Warhol –Female movie star composite, 1962.

Tomando estes dados como referência, o trânsito em que os corpos se encontram na contemporaneidade, o aspecto camaleônico que o corpo absorveu, através das técnicas cirúrgicas, incorporo ao trabalho alguns aspectos como: A superação e o melhor desempenho; o corpo sadio e veloz. Esses pontos presentificarão o trabalho contrapondo com imagens de vídeo-texto, às imagens em que os modelos aparecem com seus corpos inacabados.

Esse corpo inacabado, considerado como um objeto sempre disponível a reformas, deve aumentar os seus níveis performáticos. Para vencer os perigos crescentes de tornar-se obsoleto, o corpo deve ser continuadamente turbinado para acompanhar a sofisticação das máquinas, atender as novas demandas de prazer e liberdade próprios da atualidade.(COUTO, 2003)


FIG: 32 Detalhe da Videoinstalação O corpo como inscrição de acontecimentos, 2003.

Composta por 16 TVs de 14 polegadas, 11 vídeos cassetes e dois projetores de vídeo, a videoinstalação foi alocada em dois ambientes do espaço do museu. No primeiro uma montagem com as 16 TVs sobre cubos confeccionados de madeira e pintados na cor branca (FIG. 32), assim como todo o espaço da galeria. A montagem de forma triangular na composição dessas bases proporcionava a integração das TVs que veiculavam a imagem do modelo e uma outra TV em que era veiculado um vídeo texto, de forma a compor uma TV com imagem de um modelo e a outra com um vídeo texto, dividida dessa forma: 8 TVs exibiam modelos e 8 TVs exibiam o vídeo texto. No vídeo texto exibia-se palavras e frases que versavam sobre determinados atributos, tais como: Esbelto, esguio, beleza, vigor, juventude, o corpo inacabado, o corpo como inscrição de acontecimentos.

Ao desenvolver a filmagem, busquei travar um embate do corpo do performer com a câmera, o performer inicialmente ficava de frente, com a imagem em slow, em seguida, ele virava-se e colocava as mãos na cabeça. Esse ato era potencializado com a aproximação da câmera em um zoom, aproximando as mãos do performer até tornar-se uma imagem abstrata (FIG. 33).

Trata-se de um encontro simultaneamente calculado e aleatório entre os corpos e a câmera, descobrindo alguma coisa, ressaltando um ângulo, um volume, uma curva, seguindo um traço, uma linha, eventualmente uma dobra. E depois, bruscamente o corpo se desorganiza, se torna uma paisagem, uma caravana, uma tempestade, uma montanha de areia.(FOUCAULT, 2001, p.368)


FIG:33 Detalhe da Videoinstalação O corpo como inscrição de acontecimentos, 2003.

Esse procedimento de “render-se” frente à câmera proporcionava uma reflexão do sujeito e suas inquietações frente as suas incompletudes, aliado ao som, que consistia em sons de “arrumação”, coisas sendo arrastadas e portas batendo, produzia uma ambiência sonora no espaço de exposição que caracterizava esse desordenamento.

O segundo ambiente da videoinstalação constituía-se de duas projeções nas paredes da galeria. Uma imagem apresentava uma performer fazendo exercícios de respiração, uma respiração desregrada e ansiosa (FIG. 34). Sua imagem imprimia-se na sala de exposição ao lado de uma outra imagem em que eu realizava um auto-protagonismo (FIG. 35). Utilizava um equipamento de “ginástica involuntária”, slim gym, que descarrega cargas elétricas estimulando o músculo a contrair-se e expandir-se, sem qualquer tipo de esforço. A imagem desse equipamento no corpo, aproxima-se à equipamentos de tortura fetichistas de clubes sadomasoquistas.


FIG: 34 Detalhe da Videoinstalação O corpo como inscrição de acontecimentos, 2003.

FIG: 35 Detalhe da Videoinstalação O corpo como inscrição de acontecimentos, 2003.

A videoinstalação O corpo como inscrição de acontecimentos, de Danillo Barata, revela esse paradoxo. Quando muitos desejam eliminar as marcas do tempo e das vivências o artista nos diz que é no corpo que os acontecimentos são inscritos. A alimentação desregrada está nas gorduras acumuladas, a força dos anos está na moleza da carne, as experiências estão nas insistentes rugas que tanto nos atormentam. O som utilizado é o de coisas sendo arrastadas, de corpos sendo arrumados. As imagens exibem corpos gordos e magros, jovens e nem tão jovens, em gestos que traduzem esforços de respiração e manutenção do físico. Mostrados inicialmente de frente, logo os corpos se movimentam, nos viram as costas. Com as cabeças abaixadas, cada modelo está voltado pra si mesmo. Para Danillo, podemos disfarçar as inscrições dos acontecimentos na superfície da pele. Mas por trás do aparente, dentro de nós, estão todas as marcas, sofrimentos e alegrias perdidos, imperfeições e incompletudes que traduzem o que somos. (COUTO, 2003)

Na videoinstalação, cada corpo projetado e inscrito, com seus acontecimentos, proporcionava a validação de procedimentos anteriores, que estavam associados ao desenvolvimento do trabalho. Com suas cargas sociais, econômicas e históricas implícitas, o corpo mostrado nesse recorte obedeceu ao seu lugar e sua memória coletiva.
 

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